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Novamente Geografando

Este blog organiza informação relacionada com Geografia... e pode ajudar alunos que às vezes andam por aí "desesperados"!

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O QUE FAZ A ARQUITECTURA TÍPICA DE ÍLHAVO NUM DOS BAIRROS MAIS ELITISTAS DE LONDRES?

Mäyjo, 15.04.15

 

Desiludida e irritada por não ter sido autorizada a demolir e reconstruir a sua casa no elitista bairro de Kensington (Londres), um projecto que demoraria seis anos a completar, Zipporah Lisle-Mainwaring decidiu pintar a sua moradia avaliada em €20 milhões de vermelho e branco. Às riscas verticais.

Esta guerrilha arquitetónica tem dois objetivos: irritar os vizinhos, que estiveram na génese da rejeição da nova moradia; e tentar levar o município a autorizar a demolição da casa. E ainda que a pacata rua seja agora local de romaria de curiosos e turistas, será improvável que o Chelsea Council se deixe enganar por tal truque, efectivado em segredo a meio da noite.

A história é surreal e incomum, mas liga-se a Portugal através das riscas vermelhas e brancas, típicas dos palheiros da Costa Nova, em Ílhavo. A forma como associamos, imediatamente, esta casa aos palheiros da Costa Nova, com tudo aquilo que as separa, é um elogia indireto a quem preservou este património arquitectónico português.

As cidades portuguesas estão cheias de edifícios históricos, fachadas incríveis e monumentos únicos ao abandono. A reabilitação urbana não só permite devolver o centro da cidade aos cidadãos mas é uma porta para a cultura e memória de um local. Quem se lembraria de Ílhavo se os palheiros fossem demolidos numa qualquer década dos últimos 100 anos?

Londres ou Ílhavo?

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Segundo a Câmara Municipal de Ílhavo, os palheiros da Costa Nova são famosas e castiças casas de riscas existentes na praia com o mesmo nome, originalmente em tons de vermelho ocre e preto, utilizados como antigos armazéns de alfaias da pesca.

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Até inícios do século XIX a Costa Nova era um extenso areal desabitado mas, após a fixação da Barra do Porto de Aveiro, os pescadores das campanhas piscatórias de Ílhavo mudaram-se para a Costa Nova e começaram a construir “palheiros” para guardarem as redes e outros materiais associados à pesca.

Estes eram inicialmente amplos e sem quaisquer divisões interiores e, mais tarde, divididos com tabiques de madeira que eram “decorados” com conchas de ostras. Simultaneamente, as famílias dos seus sócios, escrivães e “arrais” de outras companhias foram sendo atraídas para a zona nos meses de verão e outono, transformando-os nos actuais “palheiros”, com riscas coloridas, bem à “moda burguesa de ir a banhos” da segunda metade desse século, para que pudessem servir como habitação na estação balnear.

O Palheiro José Estêvão, mandado construir por Manuel de Moura Vilarinho, em 1808, é um belo exemplar dos originais palheiros da Costa Nova, que se mantém na tonalidade original – o vermelho ocre. A meados desse século o parlamentar José Estêvão adquiriu-o e ainda hoje se encontra na posse dos seus descendentes, onde reunia alguns dos grandes nomes da cena artística nacional e políticos da época como Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, associados à “Geração de 70” e ao movimento do “realismo”.